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DISCURSO DE PATRONO

Proferido pelo Professor Agostinho Dias Carneiro por ocasião da formatura da 3ª série do ensino médio



Sr. Diretor, Srs. Professores, Srs. Pais e formandos

É sempre com muito orgulho que participo, como homenageado, da formatura de mais uma turma do Colégio Santo Agostinho-Leblon. Como devo ser o mais velho do grupo, considero que parte da homenagem deve ter origem no fato de que pode ser a última.

Exatamente por minha longa trajetória no Colégio, um aluno escreveu uma pequena narrativa em que Pedro Álvares Cabral chegava, não à Bahia, mas à praia do Leblon e, encantado pela vista, chamava o escrivão Pedro Vaz Caminha para que registrasse o fato e a paisagem, mas, por estar no banheiro, o escrivão não pôde atender ao capitão que, imediatamente, chamou dois marinheiros e disse:

- Não faz mal! Desçam num bote, atravessem essa pequena parte da praia e, chegando a um colégio que está ali perto, numa esquina, chamem o professor Agostinho, que ele escreve!

Mas, se eu fosse, de fato, Pero Vaz Caminha, após essa viagem de um ano com essa turma de formandos, escreveria a seguinte carta ao Rei:
Saiba VM que chego ao final desta viagem com quase 200 marujos novatos. Não foi uma viagem fácil: alguns deles ficaram pelo caminho, vítimas de reações químicas imprevisíveis, da contaminação por bactérias biologicamente novas, da falta de localização geográfica precisa ou devido a informações históricas distorcidas, além de um total despreparo diante de cálculos simples das distâncias a serem percorridas. Mas, como sabe VM, Deus cria as dificuldades para que elas nos ajudem a crescer nessa vida difícil do mar.
Os marujos que chegaram ao final da viagem, porém, nutrem grandes sonhos: pretendem ser, nesta nova terra, economistas, engenheiros, médicos, comunicadores, músicos e até professores. Mas saiba VM que é muito difícil convencê-los da necessidade de muito estudo – alguns preferem ficar no convés, deitados, olhando o inútil movimento das estrelas ou apreciando a música das ondas. Por outro lado, demonstram uma energia fantástica: fizeram mais de dez churrascos só na última etapa de nosso percurso e alguns, devo confessar, abusaram do rum. Foi inútil dizer-lhes que a viagem que todos nós fazemos nesta vida não dura só um dia, que há sempre o dia seguinte: mas VM e eu também já fomos marujos novos e sabemos o que é isso, mas cabe a nós ensinar-lhes.
Agora, chegados a esta terra, resta olhar pra frente: depois que desembarcaram é natural que se separem, cada um à procura de seu caminho, mas creio em Deus que a cruz de Cristo que trazemos em nossas velas os unirá para sempre em todos os projetos. Assim esperamos porque assim cremos.
Permita-me VM um desejo pessoal a esses marujos: pelo contato pessoal que tivemos com todos, os comandantes e os imediatos passamos a gostar deles e dói em nosso coração que eles desembarquem, mas que vão com Deus, cientes de que rezamos por eles, nessa difícil vida que terão pelos sertões, florestas e descampados e que as sementes que plantem, frutifiquem.
Se isso acontecer, se chegarem os frutos, creia VM que valeu a pena nossa viagem e que tudo se justifica. E, como sabe VM, é isso que procuramos: uma justificativa para nossas vidas, pela qual, de hoje em diante todos esses marujos são corresponsáveis.

Sem mais, despeço-me de VM!

                        Pero Vaz de Caminha